OS GRANDES SERMÕES DO MUNDO

Agostinho: As Dez Virgens

By Pr. João Bosco

AGOSTINHO é um dos maiores nomes na história da Igreja cristã. Ele era um tição arrancado do fogo, como o próprio Paulo, podero¬so troféu do Espírito Santo. Nasceu em Tagasta, África (atual Souk-Ahras, Argélia), em 13 de novembro de 354, e morreu em Hipona, África, em 28 de agosto de 430. Seu pai era pagão, mas sua mãe, Mônica, era cristã de maravilhosa beleza de caráter e profundidade de fé. Quando jovem, Agostinho foi treinado para a carreira da retórica. Ele viveu em pecado com uma moça que lhe deu um filho, a quem era profundamente dedicado, dando-lhe o nome de Adeodato. “dado por Deus”. Durante esses anos de vida licenciosa, sua mãe nunca deixou de orar e se esforçar pela conversão dele. Foi a ela que o bispo de Tagasta fez a célebre observação, que tem consolado tantas mães ansiosas, que “um filho de tantas lágrimas não pode ser perdido’.

Quando seguia sua profissão de retórica em Milão, Agostinho pôs-se sob a influência de Ambrósio, bispo de Milão, e foi levado à vida cristã. Mas ele estava tão enredado na sensualidade, que se esquivava de sacrifício que envolvesse uma confissão de fé. Depois de intensas lutas espirituais, descritas graficamente na sua obra Confissões, Agostinho finalmente achou Cristo e a paz. Em 396, foi feito bispo da sede episcopal de Hipona, na África. Daí em diante, tornou-se uma das grandes figuras da Igreja daqueles tempos, na verdade, de todos os tempos. Sua mente poderosa criou uma série de livros, sendo o maior deles A Cidade de Deus, obra vasta na qual ele procura vindicar o Cristianismo e concebe a Igreja como uma ordem nova e divina que surge das ruínas do Império Romano. Engajou-se em muitas controvérsias, sendo a mais importante a controvérsia com Pelágio e os pelagianos. Contra Pelágio, que afirmava ser o pecado de Adão puramente pessoal, e afetava só a ele, Agostinho defendeu a doutrina do pecado original, que os homens herdam de Adão uma natureza pecadora e. assim, estão sob condenação. Agostinho é acla¬mado por todas as escolas da Igreja Crista, e tanto católicos quanto protestantes o consideram, ao lado do apóstolo Paulo, como o grande mestre em relação ao significado do pecado e ao passado da natureza humana.
SEU sermão sobre “As Dez Virgens” é um interessante tratado de um dos grandes temas de púlpito: a Segundo Vinda de Cristo. Especialmente belas são as palavras finais: “As nossas lâmpadas alumiam entre os ventos e as tentações desta vida. Mas deixemos que nossa chama queime fortemente, que o vento da tentação aumente o fogo, em vez de apagá-lo”.

As Dez Virgens

Então, o Reino dos céus será semelhante a dez virgens…” (Mt 25-1)

VOCÊS que estavam presentes ontem se lembram de minha promessa, a qual, com a ajuda do Senhor, será cumprida hoje, não somente a vocês, mas aos muitos outros que também se reuniram aqui. Não é questão fácil dizer quem são as dez virgens, cinco das quais são sábias e as outras cinco, tolas. Não obstante, de acordo com o contexto desta passagem a qual desejei que fosse lida hoje novamente a vocês, amados, não penso, até onde o Senhor me conceder entendimento, que esta parábola ou similitude relacione-se somente com essas mulheres. Estas, por uma santidade peculiar e mais excelente, são chamadas virgens na igreja, as quais, por um termo mais habitual, também cha¬mamos “as religiosas”; mas, se não me engano, esta parábola se relaciona com a totalidade da Igreja. No entanto, embora devamos entendê-la somente acerca daquelas que são chamadas “as religiosas”, não são dez? Deus proíba que tão grande companhia de virgens seja reduzida a tão pequeno número! Porém, talvez alguém diga: “Mas, e se embora sejam tantas em profissão exterior, contudo, na verdade sejam tão poucas, que escassas dez podem ser encontradas!” Não é assim. Pois se Ele tivesse querido dizer que as virgens boas só deveriam ser entendidas pelas dez. Ele não teria representado cinco tolas entre elas. Se este é o número das virgens que são chamadas, por que as portas são fechadas contra as cinco?
Entendamos, amados irmãos, que esta parábola se relaciona com todos nós, isto é, com toda a Igreja, não somente com o clero de quem falamos ontem; nem somente com o laicato, mas com todos em geral. Então, por que as virgens são dois grupos de cinco? Estas virgens são todas as almas cristãs. Mas para que eu possa lhes dizer o que pela inspiração do Senhor penso, não são almas de todo tipo, mas as almas que têm fé e parecem ter boas obras na Igreja de Deus; e, não obstante, até entre elas, “cinco são sábias e cinco são tolas”. Primeiro, vejamos por que são chamadas “cinco” e por que “virgens” e, depois, consideremos o restante. Cada alma no corpo é denotada pelo número cinco, porque faz uso dos cinco sentidos. Não há nada de que tenhamos percepção pelo corpo, senão pela porta de cinco dobras: a visão, a audição, o olfato, o paladar ou o tato. Aqueles que se privam da visão ilícita, da audição ilícita, do olfato ilícito, do paladar ilícito e do tato ilícito, por causa da sua incorrupção, receberam o nome de virgens.
Mas se é bom abster-se dos estímulos ilícitos dos sentidos e. por conta disso cada alma cristã recebeu o nome de virgem, por que cinco são admitidas e cinco rejeitadas? Todas são virgens e, não obstante, cinco são rejeitadas. Não é o bastante que sejam virgens e que tenham lâmpadas. São virgens por causa da abstinência do uso ilícito dos sentidos; têm lâmpadas por causa das boas obras. De cujas boas obras o Senhor disse: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.16). Outra vez Ele diz aos discípulos: “Estejam cingidos os vossos lombos, e acesas as vossas candeias” (Lc 12.35). Nos “lombos cingidos” está a virgindade; nas “candeias acesas”, as boas obras.
O título de virgindade não é normalmente aplicado aos casados; contudo, até neles há certa virgindade de fé que produz castidade de casados. Saibam, santos irmãos, que todo aquele que, como a tocar a alma, tem fé incorrupta, pratica abstinência de coisas ilícitas e faz boas obras, não é adequadamente chamado de “virgem”. Toda a Igreja, que consiste em virgens, meninos, homens casados e mulheres casadas, é por um nome chamada de virgem. Como provamos isso? Ouçam a declaração do apóstolo Paulo, que diz não somente às mulheres religiosas, mas a toda a Igreja: “… porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (2 Co 11.2). E porque devemos nos precaver contra o Diabo, o corruptor desta virgindade, o apóstolo acrescentou: “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos e se apartem da simplicidade que há em Cristo” (v. 3). Poucos têm virgindade física; no coração, todos devemos tê-la. Se a abstinência do que é ilícito é bom, pelo que recebeu o nome de virgindade, e as boas obras são louváveis, que são significadas pelas lâmpadas, por que cinco são admitidas e cinco rejeitadas? Se há uma virgem e uma que leva lâmpada, que contudo não é admitida, onde ela se verá, que nem preserva a virgindade das coisas ilícitas e que nem desejando ter boas obras anda em trevas?
Destes, meus irmãos, sim, destes vamos tratar. Aquele que não vê o que é mau, aquele que não ouve o que é mau, aquele que desvia seu olfato dos fumos ilícitos e seu paladar da comida ilícita dos sacrifícios, aquele que recusa o abraço da esposa de outro homem, reparte o pão com os famintos, traz o estranho à sua casa, veste os desnu¬dos, reconcilia os litigiosos, visita os doentes, sepulta os mortos; ele com certeza é uma virgem, ele com certeza tem lâmpadas. O que mais buscamos? Algo, contudo, ainda busco. O santo Evangelho me colocou nesta busca. Está escrito que até entre estas virgens que levam lâmpadas, algumas são sábias e algumas tolas. Como vemos isso? Como fazemos distinção? Através do óleo. Alguma coisa grande, alguma coisa sumamente grande significa este óleo. Vocês acham que não é o amor? Isto dizemos à medida que investigamos o que é; não nos aventuramos a julgamento precipitado. Eu lhes direi por que o amor parece estar significado pelo óleo. O apóstolo diz: “… e eu vos mostrarei um caminho ainda mais excelente. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine” (1 Co 12.31b; 13-1). A caridade é o caminho acima dos demais, a qual com boa razão está significada pelo óleo, pois o óleo mantém-se acima de todos os líquidos. Coloque água, derrame óleo, e este se manterá sobre a água. Coloque óleo, derrame água, e o óleo ainda assim permanecerá sobre a água. Se você mantiver a ordem habitual, ele ficará no ponto mais alto; se você mudar a ordem, ele continuará no ponto mais alto. “A caridade nunca falha”.
Tratemos agora das cinco virgens sábias e das cinco virgens tolas. Elas desejavam ir ao encontro do Esposo. Qual é o significado de “sair ao encontro do Esposo?” Ir com o coração, estar esperando por sua vinda. Mas Ele tarda. “E, tardando o esposo, tosquenejaram todas”. O que significa “todas”? Tanto as tolas quanto as sábias “tosquenejaram todas e adormeceram”. Este sono é bom? O que quer dizer este sono? É que com a tardança do Esposo, “por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos se esfriará” (Mt 24.12)? Devemos entender este sono assim? Não gosto disso. Eu lhes direi por quê. Porque entre elas estão as virgens sábias; e, certamente, quando o Senhor disse: “E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos se esfriará”, Ele continuou, dizendo: “Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” (v. 13). Onde estariam essas virgens sábias? Elas não estão entre aquelas que vão **perseverar até ao fim”? Elas não seriam admitidas entre todas, irmãos, por nenhuma outra razão senão porque elas perseverariam até o fim. Nenhuma frieza de amor se insinuou sobre elas; nelas o amor não esfriou, mas conserva seu brilho ainda até o fim. E porque brilham até o fim, as portas do Esposo estão abertas para elas. É dito a elas que entrem, como àquele servo excelente: “Entra no gozo do teu senhor” (Mt 25-21). Qual é o significado de “todas dormiram”? Há outro sono do qual ninguém escapa. Lembram-se da declaração do apóstolo: “Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança” (1 Ts 4.13), ou seja, concernente àqueles que estão mortos? Por que eles são chamados ‘os que já dormem”, mas estão no seu próprio dia? Então, “todas dormiram”. Vocês acham que pelo fato de alguém ser sábio, não morre? Seja a virgem tola ou a sábia, todas sofrem o sono de morte igualmente. Mas os homens dizem continuamente para si mesmos: “Eis que o Dia do Julgamento está vindo. Tantos males estão acontecendo, tantas tribulações se multiplicam; vejam, todas as coisas que os profetas disseram estão quase cumpridas. O Dia do Julgamento já está às portas”. Aqueles que falam assim, em fé, superam astuciosamente tais pensamentos para “encontrarem-se com o Esposo”. Mas, vejam! guerra sobre guerra, tributação sobre tribulação, terremoto sobre terremo¬to, fome sobre fome, nação contra nação e o Esposo ainda não veio. Enquanto se espera que Ele venha, todos os que dizem: “Vejam, Ele está vindo, e o Dia do Julgamento nos encontrará aqui”, dormem. Enquanto dizem isto, continuam a dormir. Que cada um de nós tenha em vista este seu sono e persevere até ao seu sono de amor; que o sono o ache esperando assim. Pois, suponha que ele dormiu. “Aquele que dorme não ressuscitará?” Então, “todas dormiram”. Tanto as sábias quanto as virgens tolas, na parábola, todas dormiram.
“Mas, à meia-noite, ouviu-se um clamor”. O que é “à meia-noite”? Quando não há nenhuma expectativa, absolutamente nenhuma convicção. A noite indica ignorância. O indivíduo faz um cálculo consigo mesmo: “Vejam, tantos anos se passaram desde Adão, e os seis mil anos estão se completando, e então imediatamente de acordo com a computação de certos expositores, o Dia do Julgamento virá”. Contudo, estes cálculos vêm e passam, e ainda a chegada do Esposo tarda, e as virgens que haviam ido encontrá-lo, dormem. E, vejam, quando Ele não é esperado, quando os homens dizem: “Os seis mil anos foram esperados, e, passaram-se. Como saberemos quando Ele virá?” Ele virá à meia-noite. O que significa “virá à meia-noite”? Virá quando vocês não estiverem cientes. Por que Ele virá quando vocês não estiverem cientes? Ouçam o próprio Senhor: “Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder” (At 1.7). “O Dia do Senhor”, diz o apóstolo, “virá como o ladrão de noite” (1 Ts 5-2). Portanto, vigiem de noite para que não sejam surpreendidos pelo ladrão. Pois o sono da morte – quer vocês durmam ou não – virá.
Mas, à meia-noite, ouviu-se um clamor” (Mt 25.6). Que clamor foi este. senão acerca do qual o apóstolo diz: “Num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta”? “… porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Co 15-52). E quando o clamor foi dado à meia-noite: “Aí vem o esposo!”, o que se segue? “Então, todas aquelas virgens se levantaram”. O que significa todas “elas” se levantaram? “Vem a hora”, disse o próprio Senhor, “em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz [...1 [e] sairão” (Jo 5.28,29). Então, ante a última trombeta. todos se levantarão. “As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo. Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas” (Mt 25.3,4). Qual é o significado de “não levaram óleo em suas vasilhas”? O que quer dizer “em suas vasilhas”? Em seus corações. O apóstolo diz: “Nossa glória é esta, o testemunho de nossa consciência”. Há o óleo, o óleo precioso; este óleo é proveniente do dom de Deus. Os homens podem pôr óleo em suas vasilhas, mas não podem criar a azeitona. Vejam, eu tenho óleo, mas vocês criaram o óleo? É proveniente do dom de Deus. Vocês têm óleo. Levem-no consigo. O que é “levá-lo convosco”? Tenham-no dentro de si para agradar a Deus.
Essas virgens tolas que não levaram óleo consigo desejam agradar os homens mediante essa abstinência, por meio da qual são chamadas virgens, e mediante suas boas obras, quando parecem levar lâmpadas. E se desejam agradar os homens, e por conta disso fazem todas essas obras louváveis, elas não levam óleo consigo. Se vocês levam-no consigo, levam-no no interior onde Deus vê; ali levam o testemunho de sua consciência. Pois aquele que anda para ganhar o testemunho de outrem não leva óleo consigo. Se vocês se privam das coisas ilícitas e fazem boas obras para serem louvados pelos homens, não há óleo interior. E assim, quando os homens começam a deixar seus louvores, as lâmpadas falham. Observem, amados, antes que essas virgens dormissem, não está escrito que as lâmpadas se apagavam. As lâmpadas das virgens sábias queimavam com um óleo interior, com a garantia de uma boa consciência, com uma glória interior, com uma caridade interna. Contudo, as lâmpadas das virgens tolas também queimavam. Por que queimavam? Porque ainda não havia falta dos louvores dos homens. Mas depois que se levantaram, na ressurreição dos mortos, elas começaram a preparar as lâmpadas, ou seja, começaram a se preparar para prestar contas a Deus das suas obras. E porque não há ninguém a louvar, cada um está inteiramente engajado em sua própria causa, não há ninguém que não pense em si mesmo, então não havia ninguém para lhes vender óleo; assim as lâmpadas começaram a falhar, e as tolas correram até as cinco sábias e disseram: “Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam” (Mt 25.8). Elas procuravam o que se acostumaram a buscar, para brilhar com o óleo de outrem, para andar segundo os louvores de outrem.
Porém, as sábias disseram: “Não seja caso que nos falte a nós e a vós; ide, antes, aos que o vendem e comprai-o para vós” (v. 9). Esta não era a resposta daqueles que dão conselho, mas daqueles que escarnecem. Por que elas escarnecem? Porque eram sábias, porque a sabedoria estava nelas. Porque elas não eram sábias de si mesmas; mas essa sabedoria estava nelas, acerca da qual está escrito em certo livro, ela dirá àqueles que a menosprezaram, quando eles caíram nos males que ela as prenunciou: “Eu rirei em sua destruição”. O que significa, então, esta zombaria das virgens sábias diante das tolas?
“Ide. antes, aos que o vendem e comprai-o para vós”, vocês que nunca viveram bem, mas pelo fato de os homens os louvarem, eles lhes vendiam óleo. O que significa “lhes vendiam óleo”? Vendiam louvores, elogios. Quem vende elogios, senão os lisonjeiros? O quanto teria sido melhor vocês não terem aquiescido com os lisonjeiros e terem levado óleo consigo, e em prol de uma boa consciência terem feito todas as boas obras. Então vocês podem dizer: “O justo me corrigirá em misericórdia e me reprovará, mas o óleo do pecador não engordará minha cabeça”. Antes, ele diz, que o justo me corrija, que o justo me reprove, que o justo me esbofeteie, que o óleo do pecador engorde minha cabeça. O que é o óleo do pecador, a não ser as blandícias do lisonjeiro?
Então, “ide, antes, aos que o vendem”; isto vocês se acostumaram a fazer. Mas nós não lhes daremos. Por quê? ‘Não seja caso que nos falte a nós e a vós”. O que significa ‘não seja caso que nos falte”? Isto não foi falado em falta de esperança, mas em humildade sóbria e piedosa. Pois embora o homem bom tenha uma boa consciência, como ele sabe como Deus pode julgar quem não é enganado por ninguém? Ele tem uma boa consciência, nenhum pecado concebido no coração o solicita, contudo, ainda que sua consciência seja boa, por causa dos pecados diários da vida humana, ele disse a Deus: “Perdoa-nos as nossas dívidas”; considerando que ele fez o que vem a seguir, “assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Ele repartiu o pão aos famintos de coração, de coração ele vestiu os desnudos; daquele óleo interior ele fez boas obras, e contudo nesse julgamento até sua boa consciência treme.
Vejam então o que significa “dai-nos do vosso azeite”. Foi dito a cias: “Ide, antes, aos que o vendem”. Considerando que vocês estavam acostumados a viver segundo os louvores dos homens, vocês não levam óleo consigo; mas não lhes podemos dar nada, para que “não seja caso que nos falte a nós e a vós”. Pois dificilmente julgamos a nós mesmos, quanto menos julgaremos vocês? O que significa “dificilmente julgamos a nós mesmos”? Porque “quando o Rei justo se assentar no trono, quem se gloriará que o seu coração é puro?” Pode ser que você não descubra nada em sua própria consciência. Mas aquele que vê melhor, cujo olhar divino penetra as coisas mais profundas, descobre algo; Ele vê que pode ser algo, Ele descobre algo. Quanto é melhor você lhe dizer: “Não entres agora em julgamento com o teu servo”, quanto melhor: “Perdoa-nos as nossas dívidas”. Porque também lhe será dito por causa dessas tochas, por causa dessas lâmpadas, “tive fome, e deste-me de comer”. E então? As virgens tolas também não fizeram o mesmo? Sim, mas elas não o fizeram diante dEle. Como o fizeram? Conforme, que Deus nos livre, Ele disse: “Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. [...] E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão” (Mt 6.1,5). Elas compraram óleo, deram o preço, não foram defraudadas pelos louvores dos homens: buscaram os louvores dos homens e os tiveram. Estes louvores dos homens não as ajudaram no Dia do Julgamento. Mas as outras virgens, como o fizeram? “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.16). Ele não disse: ‘podem glorificar você”. Porque você tem óleo de si mesmo. Orgulhe-se e diga: Eu o tenho; mas tenho o óleo dEle, “e que tens tu que não tenhas recebido?” Assim desse modo agiu uma, e de outro, a outra.
Não é de se admirar que “tendo elas ido comprá-lo”, enquanto buscavam por pessoas por quem serem louvadas, não acharam nenhuma; enquanto estão buscando por pessoas por quem serem consoladas, não acham nenhuma; que a porta é aberta e “o esposo chega”? A Noiva, a Igreja, é glorificada com Cristo, para que os vários membros se reúnam no seu todo. “… e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta” (Mt 25.10). Então as virgens tolas vieram cm seguida; mas tinham comprado ou encontrado óleo de quem pudessem comprar? Portanto, acharam as portas fechadas; passaram a bater, mas era muito tarde.
É dito, e é verdade, não se trata de declaração enganosa: “Batei, e abrir-se-vos-á”; mas agora quando é o tempo da misericórdia e não quando é o tempo do julgamento. Pois esses tempos não podem ser confundidos, visto que a Igreja canta ao seu Senhor da “misericórdia e julgamento”. É o tempo da misericórdia; arrependam-se. Vocês podem se arrepender no tempo do julgamento? Então, vocês serão como essas virgens contra quem a porta estava fechada. “Senhor, senhor. abre-nos a porta!” O quê! Elas não se arrependeram por não terem levado óleo consigo? Sim, mas de que proveito foi o seu último arrependimento, quando a verdadeira sabedoria escarneceu delas? Portanto, ‘a porta estava fechada”. E o que lhes foi dito? “Eu não vos conheço”. Ele não as conhecia, aquEle que conhece todas as coisas? O que Ele quer dizer com “eu não vos conheço”? Eu as repilo, Eu rejeito vocês. Segundo meu conhecimento, Eu não as reconheço; meu conhecimento não conhece vícios. Agora, isto é coisa maravilhosa, não conhece vícios e julga os vícios. Não os conhece na prática; julga reprovando-os. Assim, “não vos conheço”.
As cinco virgens sábias vieram e “entraram”. Quantos de vocês, meus irmãos, estão na profissão do nome de Cristo! Que haja entre vocês as cinco sábias, mas que não sejam somente cinco. Que haja entre vocês as cinco sábias que pertencem a esta sabedoria do número cinco. Pois a hora virá, e vem quando não sabemos. Virá à meia-noite; vigiem. Assim o Evangelho conclui: “Vigiai, pois, porque não sabeis o Dia nem a hora” (Mt 25.13). Mas se todos dormirmos, como vigiaremos? Vigiem com o coração, vigiem com fé, vigiem com espe¬rança, vigiem com amor, vigiem com boas obras; e então, quando dormirem no corpo, virá o tempo em que vocês ressuscitarão. E quando vocês tiverem ressuscitado, preparem as lâmpadas. Então não se apagarão mais, serão renovadas com o óleo interno da consciência; o Noivo os abraçará no seu abraço espiritual, Ele os trará à sua casa, onde vocês nunca dormirão, onde sua lâmpada nunca se apagará. Porém, no momento estamos no trabalho, e as nossas lâmpadas alumiam entre os ventos e as tentações desta vida. Mas deixemos que nossa chama queime fortemente, que o vento da tentação aumente o fogo, em vez de apagá-lo.

 

Charles Haddon Spurgeon: Poupado!
By Pr. João Bosco
CHARLES HADDON SPURGEON NASCEU EM KELVEDON, Inglaterra, em 19 de junho de 1834, e morreu em Mentone, Suíça, em 31 de janeiro de 1892. Tornou-se célebre como “pregador menino”, e aos vinte e dois anos de idade era o pregador mais popular do mundo. O Metropolitan Tabernacle, com seis mil lugares, foi construído para ele, onde pregou por quase duas gerações. Seus sermões foram taquigrafados e espalhados por milhares de pessoas pelos países de língua inglesa. Se levarmos em consideração o número de leitores semanais, como também as congregações que o ouviram no Tabernacle, é seguro dizer que Spurgeon pregou para mais pessoas que qualquer outro pregador na história da Igreja Crista. Quase todos os que registraram a impressão que tiveram da pregação de Spurgeon prestam testemunho da beleza singular c encanto de sua voz. Sua pregação era direta e pessoal. Certa feita, ele declarou: “Espero nunca pregar diante de uma congregação – desejo sempre pregar para vocês”. Charles Francis Adams, ministro americano para a Inglaterra durante a guerra civil, brinda-nos com esta impressão de Spurgeon: “Não havia pensamento característico ou raciocínio moderno. Seu poder consistia em simpatia pela corrente do sentimento humano em todas as idades a respeito do tópico solene da responsabilidade moral a um poder superior, aqui e no futuro”. Nenhum pregador deixou tantos sermões impressos como Spurgeon. Desses milhares de sermões, é difícil fazer uma escolha, pois Spurgeon é menos interessante de ler do que quase todos os grandes pregadores. Mas quase todos os seus sermões mostram seu estilo e o profundo desejo de salvar as almas daqueles a quem ele pregava.
Escolhi o sermão sobre o notável texto “Ficando eu de resto”. Neste sermão, o leitor descobrirá, como Adams observou, que Spurgeon sempre manteve no primeiro plano o “tópico solene da responsabilidade moral a um poder superior, aqui e no futuro”.
Poupado!
“Ficando eu de resto.” (Ez 9-8)
A VISÃO  de Ezequiel, registrada no capítulo prévio, trouxe à luz as abominações da casa de judá. A visão que se segue neste capítulo mostra a terrível punição imputada pelo Senhor Deus à nação culpada, começando por Jerusalém.
Ele viu os executores apresentarem-se armados, e o homem vestido de Unho marcar as pessoas antes que os executores começassem o trabalho de destruição pela porta do Templo; viu-os sair pelas principais ruas da cidade e não deixar de percorrer um único beco; eles mataram todas as pessoas que não tinham o sinal na testa marcado com a tinta do tinteiro de escrivão. Ele ficou só, esse profeta do Senhor, ele próprio poupado em meio ao massacre universal; e quando as carcaças caíram aos seus pés, e corpos manchados de sangue derramado e coagulado jaziam espalhados ao redor, ele disse: “Ficando eu de resto”. Ele ficou vivo entre os mortos, porque foi encontrado fiel entre os incrédulos. Ele sobreviveu à destruição universal, porque tinha servido o seu Deus em meio à depravação universal.
Agora retiraremos a sentença da visão de Ezequiel e nos apropriaremos dela. Penso que quando a relemos e a repetimos: “Ficando eu de resto”, ela muito naturalmente nos convida a fazer um retrospecto do passado, também sugere muito prontamente um prospecto do futuro, e, acho, permite igualmente um contraste terrível reservado aos impenitentes.
1. Em primeiro lugar, meus irmãos, temos aqui uma reflexão patética, que nos convida a fazer um retrospecto solene. “Ficando eu de resto’-. Muitos aqui se lembram dos tempos de enfermidade, quando a cólera grassava pelas ruas da cidade. Talvez você tenha esquecido aquele período de pestilência, mas eu não, nunca esquecerei, quando os deveres de meu pastorado me convocaram a andar continuamente por entre as casas atingidas pelo terror e ver os que morriam e os mortos. Impresso em meu coração sempre permanecerá algumas dessas cenas tristes que testemunhei quando cheguei pela primeira vez a esta metrópole e, em vez de abençoar os vivos, fui empregado para enterrar os mortos. Alguns aqui presentes passaram não só por uma epidemia de cólera, mas por muitas, e talvez tenham testemunhado também climas onde a febre prostrava centenas de pessoas, e onde a peste e outras doenças medonhas esgotaram seus tremores, e toda seta atingiu o alvo no coração de alguns de seus companheiros. Contudo, alguns ficaram de resto. Você andou por entre os sepulcros, mas não tropeçou neles. Doenças cruéis e fatais espreitaram seu caminho, mas não lhes foram permitido devorar você. Balas da morte assobiaram perto de seus ouvidos, e no entanto você ficou vivo, pois a bala não estava destinada ao seu coração. Você olha para trás, alguns de vocês, por cinqüenta, sessenta, setenta anos. A cabeça calva e branca conta a história de que você não é mais um recruta inexperiente na guerra da vida. Você se tornou veterano, se não inválido, no exército. Você está pronto para se aposentar, tirar a armadura e dar lugar a outro. Olhe para trás, irmão, você entrou no descanso; lembre as muitas vezes em que você viu a morte granizar multidões à sua volta, fazendo-o pensar: “Eu fiquei de resto”. E nós também que somos mais jovens, em cujas veias o sangue ainda pulsa com vigor, nos lembramos dos tempos de perigo quando milhares caíam à nossa volta, contudo podemos dizer na casa de Deus com grande ênfase: “Eu fiquei de resto” – protegido, grande Deus, quando muitos outros pereceram; sustentado, permanecendo sobre a rocha da vida quando as ondas da morte colidiam sobre mim, os borrifos incidiam com forte impacto sobre mim e meu corpo ficou saturado com doença e dor, contudo ainda estou vivo – ainda tenho a permissão de conviver entre as ocupadas tribos dos homens.
Que retrospecto como este nos sugere? Não deve cada um de nós fazer a pergunta: “Para que fui poupado? Por que fui deixado?” Nessa época muitos de vocês estavam -  mesmo agora alguns ainda estão – mortos em delitos e pecados. Você não foi poupado porque era fiel, pois você não produziu nada mais que as uvas de Gomorra. Certamente, Deus não deteve sua espada por haver alguma coisa boa em você. Inúmeros e clamorosos males em seu temperamento, se não ainda em sua conduta, bem poderiam ter exigido sua execução. Você foi poupado. Deixe-me perguntar-lhe por quê. Foi porque essa misericórdia o visitou, essa graça renovou sua alma? Você constatou que foi 0 que se deu com você? A graça soberana o venceu, destruiu os preconceitos, desgelou seu coração glacial, fez em pedaços sua vontade empedernida? Pecador, lembrando as vezes em que você ficou de resto, você foi poupado para que fosse salvo com grande salvação? E se você não pode dizer sim a esta pergunta, permita-me perguntar-lhe se ainda não pode. Amigo, por que Deus o poupou por tanto tempo, quando você ainda era inimigo dEle, um estranho para Ele e muito distante dEle pelas más obras? Ou, pelo contrário, Ele o poupou – tremo com a mera menção da possibilidade -, Ele prolongou seus dias para desenvolver suas propensões a fim de que você ficasse mais maduro para a condenação, enchesse a medida de sua flagrante iniqüidade e fosse lançado no inferno, um pecador murcho e seco, como lenha pronta para o fogo? Sua vida encontra-se em tal situação? Esses momentos poupados se deteriorarão através de más condutas, ou serão entregues ao arrependimento e à oração? Antes que o último dos sóis se ponha em trevas perpétuas para você, você olhará para Ele agora? Neste caso, você terá razão de bendizer a Deus por toda a eternidade porque você ficou de resto, porque você ficou de resto para que ainda buscasse e ainda o encontrasse, aquEle que é o Salvador dos pecadores.
Será que entre muitos de vocês a quem falo não são cristãos, e vocês, também, não ficaram de resto? Quando santos melhores que você foram arrancados dos vínculos terrenos de laços familiares, quando estrelas mais luminosas que você foram enviadas pela noite, você ainda teve a permissão de brilhar com seu pobre e tremeluzente raio? Por que, grande Deus? Por que eu fiquei de resto? Vou fazer essa pergunta para mim mesmo. Ao me poupar por tanto tempo, meu Senhor, tu não tens algo mais para eu fazer? Não há um propósito até agora não concebido em minha alma, o qual tu irás me indicar, para cuja execução tu ainda me darás graça e força e ainda me pouparás por mais um pouco de tempo? Ainda sou imortal ou protegido ao menos de toda seta de morte, porque meu trabalho está incompleto? A história dos meus anos foi prolongada porque toda a história das tabuinhas1 ainda não se completou? Então mostre-me o que tu tens para eu fazer. Visto que fiquei de resto, ajuda-me a que eu me sinta como alguém especialmente consagrado, deixado para um propósito. guardado para um fim, de outro modo eu teria tido vermes, virado comida há muito tempo e meu corpo esmigalhado de volta à terra mãe. Cristão, sempre faça esta pergunta para si mesmo; mas faça sobretudo quando em tempos de doença e mortalidade incomuns você é poupado. Se fiquei de resto, por que foi? Por que não fui levado para casa no céu? Por que não entrei em meu descanso? Grande Deus e Senhor, mostra-me o que tu tens para eu fazer, e dá-me graça e força para fazê-lo.
Mudemos o retrospecto por um momento e olhemos a misericórdia poupadora de Deus sob outra luz. “Eu fiquei de resto”. Alguns aqui presentes, cuja história eu sei bem, podem afirmar: “Eu fiquei de resto”, e dizê-lo com ênfase peculiar. Você nasceu de pais descrentes; as primeiras palavras de que você se lembra eram vis e blasfemas, muito ruins para repetirmos. Você se lembra de quanto estava poluído o ar que seus pulmões infantis sorveram em sua primeira respiração – o ar do vício, do pecado e da iniqüidade. Vocês cresceram, você e seus irmãos e irmãs, lado a lado; vocês encheram a casa de pecado, prosseguiram em seus delitos juvenis e incentivavam-se uns aos outros a hábitos ruins. Assim você cresceu para a humanidade, e depois foi atado em laços de obliqüidade como também em laços de consangüinidade. Você aumentou as opções; fez novas associações À medida que seu círculo familiar aumentava, assim aumentava a notoriedade de sua conduta. Vocês todos conspiraram para transgredir o sábado; você engendrou a mesma artimanha e perpetrou as mesmas impropriedades.
Talvez você recorde o tempo em que sempre que os apelos de domingo eram feitos, uma zombaria à santidade era expressa diante do convite. Você se lembra de como um e outro de seus antigos companheiros morreu; você os acompanhou até o sepulcro e sua alegria foi retida por um pouco, mas logo irrompeu novamente. Então uma irmã morreu, consumida pela infidelidade; depois um irmão foi levado; ele não tinha esperança na morte; tudo era trevas e desespero para ele. E assim, pecador, você sobreviveu a todos os seus companheiros. Se você está inclinado a ir para o inferno, tem de ir para lá por um caminho trilhado; um caminho que, quando você olha para trás e vê o que já percorreu, está manchado de sangue. Você se lembra de como tudo era antes de você ter ido para a casa longínqua em trevas espessas, sem vislumbre ou raio de alegria? E agora você ficou de resto, pecador; e, santificado seja Deus, talvez você diga: “Sim, não só fiquei de resto, mas estou aqui na casa de oração; e se conheço meu coração, não há nada que eu odeie tanto quanto viver a vida que eu tinha. Aqui estou, e nunca acreditei que um dia estaria aqui. Olho para trás com profundo lamento por aqueles que já partiram; mas ainda que os lamente, expresso minha gratidão a Deus por eu não estar em tormentos – não no inferno -, mas ainda aqui; não somente aqui, mas tendo esperança de que um dia verei a face de Cristo e ficarei entre mundos flamejantes revestido com sua justiça e guardado por seu amor”.
Você ficou de resto, e o que você deve dizer? Você deve se jactar? Não; seja duplamente humilde. Você deve tomar a honra para si? Não; ponha a coroa na cabeça da graça livre, rica e imerecida. E o que você deve fazer acima de todos os outros homens? Você deve se empenhar duplamente em servir a Cristo. Assim como você serviu o Diabo resolutamente, até que chegou a servi-lo exclusivamente, e todos os seus amigos morreram, pela graça divina empenhe-se por Cristo – para segui-lo, ainda que o mundo inteiro o menospreze, e continuar até ao fim, até, se todo mestre se apostatar, que seja dito acerca de você no final: “Ele ficou de resto. Só ficou ele em pecado enquanto seus companheiros morreram todos, e então só ele ficou em Cristo quando seus amigos o abandonaram”. Isto sempre deve ser dito acerca de você: “Ele ficou de resto”.
Isto também sugere mais uma forma do mesmo retrospecto. Que providência especial cuidou de nós e guardou nossas estruturas fracas! Entre vocês há, em particular, os que ficaram de resto numa idade que, se você olhar para os dias da mocidade, evocará muito mais parentes na tumba do que no mundo – mais debaixo da terra do que sobre ela. Em seus sonhos, você é companheiro dos mortos. Contudo você ficou de resto. Protegido entre mil perigos da infância, guardado na mocidade, guiado com segurança acima dos baixios e areias movediças da imaturidade, acima das pedras e recifes da maturidade, você chegou além do período regular da vida mortal e ainda está aqui- Setenta anos exposto à morte perpétua, e ainda guardado até que chegue, talvez, quase aos oitenta anos.
Você ficou de resto, meu querido irmão, mas por quê? Por que todos os irmãos e irmãs já partiram? Por que os antigos companheiros de escola foram se reduzindo em número? Você não se lembra de ninguém, que hoje esteja vivo, que tenha sido seu amigo na mocidade. Como é que você, que viveu em certo período há tanto tempo, vê novos nomes em todas as portas de lojas, novos rostos nas mas e tudo novo em relação ao que viu outrora nos dias da sua mocidade? Por que você foi poupado? Você não é convertido? Você é mulher não convertida? Você foi poupado para que fim? É para que você seja salvo na undécima hora – que Deus o conceda -, ou você foi poupado até que tivesse pecado até às mais baixas profundezas do inferno, a fim de que vá para lá como o mais exasperado pecador por causa de repetidas advertências que foram todas negligenciadas – você foi poupado para isso, ou foi para que seja salvo? Mas você é cristão? Então não é difícil responder a pergunta: Por que você foi poupado?
Eu não creio que haja uma mulher idosa na terra, vivendo na cabana mais obscura da Inglaterra e sentada esta mesma noite no escuro, com falta de vela, sem ter meios para comprar outra – eu não creio que essa senhora idosa seja mantida fora do céu por cinco minutos a menos que Deus tivesse algo para ela fazer na terra; e não acho que os velhos sejam preservados aqui a menos que houvesse algo para eles fazerem. Conte, conte, você, homem idoso; conte a história dessa graça preservadora que o guardou até aqui. Conte a seus filhos e netos que é em Deus que você confia. Levante-se como patriarca venerável e conte como Ele o livrou em seis dificuldades diferentes, e em sete nenhum mal o tocou. Preste às gerações futuras o testemunho fiel de que a palavra que Ele disse é verdadeira e que a promessa que Ele fez não pode falhar. Apóie-se em seu bordão e diga antes de morrer no meio de sua família: “Nem uma só palavra caiu de todas as boas palavras que falou de vós o Senhor, vosso Deus” (Js 23.14). Que seus dias maduros produzam um testemunho jovial do amor de Deus; e à medida que você for avançando em anos, seja cada vez mais avançado em conhecimento e na convicção confirma¬da da imutabilidade do seu conselho, da veracidade do seu juramento, da preciosidade do seu sangue e da certeza da salvação de todos os que puseram a confiança nEle. Então saberemos que você foi pou¬pado para um propósito sublime e nobre. Você dirá com lágrimas de gratidão e o ouviremos com sorrisos de alegria: “Eu fiquei de resto”.
2. Tenho de sugerir estes retrospectos em vez de segui-los, embora, permita o tempo, aumentemos bem abundantemente, e portanto, devo me apressar em convidá-lo para um prospecto. “Ficando eu de, resto”. Você e eu logo passaremos deste mundo para outro. Esta vida é apenas uma balsa; estamos sendo transportados, e em breve chegaremos à verdadeira margem, a verdadeira terra firme, pois aqui não há nada que seja significativo. Quando entrarmos no mundo vindouro, teremos de esperar uma ressurreição para breve – uma ressurreição dos justos e dos injustos; e nesse dia solene devemos esperar que tudo o que habita a face da terra venha a ser reunido em um lugar. E Ele virá, aquEle que outrora viera para sofrer: “[Ele] vem a julgar a terra; com justiça julgará o mundo e o povo, com eqüidade” (SI 98.9). AquEle que veio como criança virá como o Infinito. AquEle que foi deitado envolto em faixas virá cingido com cinto de ouro, com grinalda de arco-íris e vestes de tempestade. Lá, todos seremos uma multidão inumerável; a terra será coroada desde o mais profundo leito do vale até o ápice da montanha, e as ondas do mar se tornarão o lugar permanente e sólido para os homens e mulheres que dormiram sob suas torrentes. Então todo olho se fixará nEle, todo ouvido estará aberto para Ele e todo coração observará com temor solene e expectativa temerosa as realizações daquele que será o maior de todos os dias, aquele dia de dias, aquele sinete das eras, quando será consumada a dispensação. Em pompa solene, entra o Salvador e seus anjos com Ele. Você ouve a voz quando Ele brada: “Colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar” (Mt 13-30).
Veja os ceifeiros, como vêm com asas de fogo! Veja como pegam foices afiadas, que por muito tempo foram aguçadas na pedra de moinho da longanimidade de Deus, mas que finalmente ficaram afiadas. Você os vê se aproximando? E lá estão eles ceifando uma nação com as foices. Os idolatras vis caíram agora mesmo, e ali uns blasfemadores conhecidos foram esmagados debaixo dos pés dos ceifeiros, Veja um bando de bêbedos sendo levado sobre os ombros dos ceifeiros para o grande fogo ardente. Veja em outro lugar o libertino, o adúltero, o impudico amarrados em feixes – feixes cujos vimes nunca se arrebentarão – e serem lançados no fogo, c como brilham nos tormentos indescritíveis daquele abismo; e eu fiquei de resto? Grande Deus, estarei envolto somente na sua justiça, a justiça daquele que pôs meu Juiz aprumado no tribunal? Quando os ímpios clamarem: “Pedras, escondem-nos; montes, caiam sobre nós”, estes olhos observarão, esta face ousará virar-se para a face daquEle que se assenta no trono? Estarei tranqüilo e impassível em meio ao terror e consternação universal? Serei contado com a multidão de santos que, vestidos de linho branco que é a justiça dos santos, esperarão o impacto, verão os ímpios lançados na destruição e se sentirão seguros? Será assim, ou serei amarrado num feixe para queimar e varrido para sempre pelo sopro das narinas de Deus, como a palha lançada ao vento? Tem de ser um ou outro; qual será? Posso responder essa pergunta? Posso falar? Posso falar – falar agora -, pois tenho neste mesmo capítulo aquilo que me ensina como julgar a mim mesmo.
Aqueles que são preservados têm a marca na testa, e possuem um caráter como também uma marca, e o caráter é: eles suspiram e choram por todas as abominações dos ímpios. Se eu odeio o pecado, e se eu suspiro porque outros o amam – se eu choro porque por fraqueza caí – se o meu pecado e o pecado dos outros me são fonte constante de tristeza e vexação de espírito, então tenho a marca e a evidência daqueles que nem suspirarão nem chorarão no mundo por vir, pois a tristeza e o suspiro fugirão? Tenho hoje a marca do sangue em minha fronte? Dize, minha alma, tu puseste a fé só em Jesus Cristo, e, como fruto da fé, tua fé aprendeu a amar, não só aquEle que te salvou, mas também os outros que ainda não estão salvos? E suspiro e choro por dentro, enquanto trago por fora a marca de sangue? Venha, irmã, irmão, responda por si mesmo, eu lhe exorto; exorto-lhe a agir assim pela terra cambaleante e pelos pilares arruinados do céu. que seguramente tremerão. Eu lhe peço pelo querubim e serafim que estarão diante do trono do grande Juiz; pelos raios ardentes que iluminarão a espessa escuridão, deixarão o sol maravilhado e transformarão a lua em sangue; por aquEle cuja língua é como chamejante espada de fogo; por aquEle que o julgará, o provará, lera seu coração, declarará seus caminhos e lhe dará sua porção eterna.
Eu o exorto, pela certeza da morte, pela caução do julgamento, pelas glórias do céu, pelas solenidades do inferno – rogo, imploro, suplico, peço -, faça agora a si mesmo estas perguntas: “Eu ficarei de resto? Eu creio em Cristo? Eu nasci de novo? Eu tenho um coração novo e um espírito reto? Ou, ainda sou o que sempre fui – inimigo de Deus, desdenhador de Cristo, amaldiçoado pela Lei, expulso do Evangelho, sem Deus e sem esperança, estranho para a comunidade de Israel?” Não consigo lhe falar com tanta seriedade quanto falaria com Deus. Quero, com isso, lançar esta pergunta em seus próprios lombos e incitar os pensamentos mais profundos do coração. Pecador, o que será de você quando Deus o cirandar como a palha do trigo? Qual será sua porção? Você que está de pé no corredor, qual será sua porção; você que está no meio dessa aglomeração, qual será sua porção, quando Ele voltar e nada escapar dos seus olhos? Diga-me, você o ouvirá? Diga-me, e as cordas do seu coração arrebentarão no momento em que Ele proferir o som trovejante: “Apartai-vos, malditos”; ou será sua porção feliz – a sua alma transportada todo esse tempo com felicidade indizível: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34)? Nosso texto convida um prospecto. Peço que você o considere, olhe o fluxo estreito da morte e diga: “Eu ficarei de resto?”
Quando tu, meu justo Juiz, vieres
Levar para Casa teu povo resgatado.
Estarei eu entre eles?
Este verme desprezível que sou,
Que às vezes tem medo de morrer,
Será achado à tua mão direita?
3. Mas agora chegamos a um contraste terrível, que penso nos permitir o texto: “Ficando eu de resto”. Haverá alguns que não ficarão de resto no sentido em que temos falado e, não obstante, ficarão de outra maneira mais horrível. Eles ficarão por misericórdia, abandonados pela esperança, entregues pelos amigos e tornar-se-ão presa da fúria implacável, da severidade súbita, infinita e não mitigada e da justiça de um Deus irado. Mas eles não ficarão isentos de julgamento, pois a espada os achará, as taças de Jeová lhes alcançarão os corações. E esse zelo, cuja pilha é madeira, e muita fumaça os devorará súbita e irremediavelmente. Pecador, você ficará de fora. Digo que você ficará de fora de todas as alegrias afetuosas que hoje você adota – fora daquele orgulho que agora lhe robustece o coração; você será bastante humilhado. Você ficará de fora daquela estrutura de ferro que hoje repele o dardo da morte. Você ficará sem os amigos e companheiros que o atraem ao pecado e o endurecem na iniqüidade. Você ficará sem a sua fantasia agradável e a graça alegre que mofa as verdades da Bíblia e escarnece das solenidades divinas. Você ficará sem nenhuma das suas esperanças animadas e de todas as suas delícias imaginárias. Você ficará sem o anjo doce, a Esperança, que nunca abandona ninguém senão os que são condenados ao inferno. Você ficará sem o Espírito de Deus que hoje, por vezes, pleiteia com você. Você ficará sem Jesus Cristo, cujo Evangelho foi pregado com muita freqüência em seus ouvidos. Você ficará sem Deus Pai; Ele fechará os olhos da piedade contra você, suas entranhas de compaixão nunca mais anelarào por você; nem seu coração dará atenção aos seus gritos. Você ficará de fora; mas, repito, você não ficará como alguém que escapou, pois quando a terra se abrir para engolir os ímpios, ela se abrirá debaixo dos seus pés e o tragará.
Quando o raio reluzente vier perseguir o espírito que entra no inferno, ele o perseguirá, o alcançará e o achará. Quando Deus fizer os ímpios em pedaços e não houver ninguém que os livre, Ele fará você em pedaços, Ele lhe será como fogo consumidor, sua consciência estará cheia de fel, seu coração impregnado de amargura, seus dentes serào quebrados até com pedras miúdas, suas esperanças estraçalhadas com seus raios e todas as suas alegrias fenecidas e destruídas com o seu sopro. Pecador descuidado, pecador furioso, você que agora está se arremessando para baixo a caminho da destruição, por que bancar o louco a esse nível? Há maneiras mais em conta para rir-se de si mesmo. Bata a cabeça contra a parede; faça uns rabiscos e, como Davi, deixe a saliva escorrer pela barba, mas não permita que seu pecado caia em sua consciência e não admita que seu desdém por Cristo seja como pedra de moinho posta no pescoço, com a qual você será lançado no mar para sempre. Seja sábio, eu lhe peço. Senhor, faze o pecador sábio; cala sua loucura por algum tempo; deixa-o sóbrio para ouvir a voz da razão; deixa-o em silêncio para ouvir a voz da consciência, deixa-o ser obediente para ouvir a voz das Escrituras. “Portanto, assim te farei, ó Israel! E porque isso te farei. prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus” (Am 4.12). Israel, “ordena a tua casa. porque morrerás e não viverás” (2 Rs 20.1).
“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16.31). Sinto que tenho uma mensagem hoje à noite para alguém. Embora possa haver os que pensam que o sermão não é apropriado para uma congregação onde há tão grande proporção de homens e mulheres convertidos, contudo que grande porção de descrentes temos aqui também! Eu sei que você veio, muitos de vocês, para ouvir alguma história engraçada ou identificar um discurso estranho e extravagante de alguém que você reputa ser excêntrico. Ele é excêntrico e espera continuar assim até que morra; mas é excêntrico sendo sério e desejando ganhar almas. Pobre pecador, não há conto estranho que eu não contasse se achasse que seria bênção para você. Não há linguagem grotesca que eu não usasse, por mais que me fosse atirado de volta, se eu julgasse que lhe seria útil. Não tenho em vista ser conhecido como bom orador; os que usam de linguagem rebuscada moram nos palácios do rei. Eu falo com você como alguém que sabe que não tem de prestar contas a nenhum homem, senão a Deus; como alguém que terá de prestar contas de si mesmo no último grande dia. E peço-lhe que você não fale sobre isto e aquilo que observou no meu linguajar. Pense apenas sobre isto: “Eu ficarei de resto? Serei salvo? Serei arrebatado para habitar com Cristo no céu? Ou serei lançado no inferno para sempre e sempre?” Reflita a respeito destas coisas. Pense seriamente sobre elas. Ouça a voz que diz: “O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37). Dê atenção à voz que repreende: “Vinde, então, e argüi-me, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã” (Is 1.18). Como sua vida será poupada quando os ímpios são julgados? Onde mais você achará abrigo quando a tempestade da ira divina rugir? Onde mais você estará senão na porção dos justos no fim dos dias?
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1 Referência à antiga escrita cuneiforme do povo de Ebla, cujos registros eram feitos em pequenas tabuinhas (ou tabletes) de argila.

 

Jesus Cristo:
O Sermão da Montanha

BEM-AVENTURADOS os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.
Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas, no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus.
Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no Reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no Reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos céus.
Ou vistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raça será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno. Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem, e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que, de maneira nenhuma, sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil.
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela. Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno. Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, que lhe dê carta de desquite. Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério; e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.
Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás teus juramentos ao Senhor. Eu, porém, vos digo que, de maneira nenhuma, jureis nem pelo céu, porque é o trono de Deus, nem pela terra, porque é o escabelo de seus pés, nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei, nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não, porque o que passa disso é de procedência maligna.
Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, po¬rém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a vestimenta, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ou vistes que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus.
Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus.
Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita, para que a tua esmola seja dada ocultamente, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente.
E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai, que vê o que está oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário antes de vós lho pedirdes.
Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal; porque teu é o Reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém! Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.
E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, porque desfiguram o rosto, para que aos homens pareçam que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Porém tu, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas sim a teu Pai, que está oculto; e teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará.
Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam, nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.
A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!
Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.
Por isso, vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que a vestimenta? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao ves¬tuário, porque andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? (Porque todas essas coisas os gentios procuram.) Decerto, vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas; mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.
Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
Não julgueis, para que não sejais julgados, porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão.
Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas; para que não as pisem e, voltando-se, vos despedacem.
Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque aquele que pede recebe; e o que busca encontra; e, ao que bate, se abre. E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se, vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.
Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, poucos há que a encontrem.
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda arvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.
Nem todo o que me diz-. Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.
Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras e as não cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda.

Profeta Isaías:
Livro de Isaías, Capítulos 63 e 64

QUEM é este que vem de Edom, de Bozra, com vestes tintas? Este que é glorioso em sua vestidura, que marcha com a sua grande força? Eu, que falo em justiça, poderoso para salvar. Por que está vermelha a tua ves¬tidura? E as tuas vestes, como as daquele que pisa uvas no lagar? Eu sozinho pisei no lagar, e dos povos ninguém se achava comigo; e os pisei na minha ira e os esmaguei no meu furor; e o seu sangue salpicou as minhas vestes, e manchei toda a minha vestidura. Porque o dia da vingança estava no meu coração, e o ano dos meus redimidos é chegado. E olhei, e não havia quem me ajudasse; e espantei-me de não haver quem me sustivesse; pelo que o meu braço me trouxe a salvação, e o meu furor me susteve. E pisei os povos na minha ira e os embriaguei no meu furor, e a sua força derribei por terra.
As benignidades do Senhor mencionarei e os muitos louvores do Senhor, consoante tudo o que o Senhor nos concedeu, e a grande bondade para com a casa de Israel, que usou com eles segundo as suas misericórdias e segundo a multidão das suas benignidades. Porque o Senhor dizia: Certamente, eles são meu povo, filhos que não mentirão. Assim ele foi seu Salvador. Em toda a angústia deles foi ele angustiado, e o Anjo da sua presença os salvou; pelo seu amor e pela sua compaixão, ele os remiu, e os tomou, e os conduziu todos os dias da antigüidade. Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo-, pelo que se lhes tornou em inimigo e ele mesmo pelejou contra eles. Todavia, se lembrou dos dias da antigüidade, de Moisés e do seu povo, dizendo: Onde está aquele que os fez subir do mar com os pastores do seu rebanho? Onde está aquele que pôs no meio deles o seu Espírito Santo, aquele cujo braço glorioso ele fez andar à mão direita de Moisés? Que fendeu as águas diante deles, para criar um nome eterno? Aquele que os guiou pelos abismos, como o cavalo, no deserto, de modo que nunca tropeçaram? Como ao animal que desce aos vales, o Espírito do Senhor lhes deu descanso; assim guiaste ao teu povo, para criares um nome glorioso.
Atenta desde os céus e olha desde a tua santa e gloriosa habitação. Onde estão o teu zelo e as tuas obras poderosas? A ternura das tuas entranhas e das tuas misericórdias detém-se para comigo! Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão nos não conhece, e Israel não nos reconhece. Tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antigüidade é o teu nome. Por que, ó Senhor, nos fazes desviar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que te não temamos? Faz voltar, por amor dos teus servos, as tribos da tua herança. Só por um pouco de tempo, foi possuída pelo teu santo povo; nossos adversários pisaram o teu santuário. Tornamo-nos como aqueles sobre quem tu nunca dominaste e como aqueles que nunca se chamaram pelo teu nome.
Ó! Se fendesses os céus e descesses! Se os montes se escoassem diante da tua face! Como quando o fogo inflama a lenha e faz ferver as águas, para fazeres notório o teu nome aos teus adversários, assim as nações tremessem da tua presença! Quando fazias coisas terríveis, que não esperávamos, descias, e os montes se escoavam diante da tua face. Porque desde a antigüidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti, que trabalhe para aquele que nele espera. Saíste ao encontro daquele que se alegrava e praticava justiça, daqueles que se lembram de ti nos teus caminhos; eis que te iraste, porque pecamos; neles há eternidade, para que sejamos salvos. Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; e todos nós caímos como a folha, e as nossas culpas, como um vento, nos arrebatam. E já ninguém há que invoque o teu nome, que desperte e te detenha; porque escondes de nós o rosto e nos fazes derreter, por causa das nossas iniqüidades.
Mas, agora, ó Senhor, tu és o nosso Pai; nós, o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos. Não te enfureças tanto, ó Senhor, nem perpetuamente te lembres da iniqüidade; eis, olha, nós te pedimos, todos nós somos o teu povo. As tuas santas cidades estão feitas um deserto; Sião está feita um deserto, Jerusalém está assolada. A nossa santa e gloriosa casa, em que te louvavam nossos pais, foi queimada; e todas as nossas coisas mais aprazíveis se tornaram em assolação. Conter-te-ias tu ainda sobre estas calamidades, ó Senhor? Ficadas calado, e nos afligidas tanto?

Apóstolo Pedro:
0 Sermão que Ganhou Três Mil Almas

O Sermão de Pedro no Dia de Pentecostes (At 2.14 -36, 38b, 39)

VARÕES judeus e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo esta a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel:
E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão; e farei aparecer prodígios em cima no céu e sinais em baixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes de chegar o grande e glorioso Dia do Senhor; e acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos; ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela. Porque dele disse Davi:
Sempre via diante de mim o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja comovido. Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; e ainda a minha carne há de repousar em esperança. Pois não deixarás a minha alma no Hades, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção. Fizeste-me conhecidos os caminhos da vida; com a tua face me encherás de júbilo.
Varões irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca Davi que ele morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura. Sendo, pois, ele profeta e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono, nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no Hades, nem a sua carne viu a corrupção. Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nós somos testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis. Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio diz:
Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés.
Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.
Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar.

6 Respostas to “OS GRANDES SERMÕES DO MUNDO”

  1. erivelton Says:

    MUITO BOM
    MUITO BOM…..

  2. Luzia Torres Says:

    Estes comentário é de fácil interpretação
    Jesus continue te usando no ensino da palavra
    de Deus ..
    Parabéns …

  3. CRISTIANO Says:

    EU QUERO PREGAR JESUS CRISTO COM TODA A MINHA ALMA,,…VC TEM UM CONSELHO…PRA MIM.;;;;
    GOSTEI DO SEU TRABALHO DEUS TE ABENÇOE.

  4. paulo cesar Says:

    Parabens Pastor, o Senhor Deus realmente lhe deu uma maravilhosa revelação.

  5. missionario-tychique Says:

    graças a Deus . em tudo que eu discobri e uma bençao, isto vai mudar a minha vida.

  6. missionario-tychique Says:

    que Deus seja louvado pela estas revelaçoes, eu quero tambem ter este conhecimento , atraves do Espirito Santo , isto aqui e uma benção.

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